Ouves
uma voz trémula, as lágrimas ofuscam-lhe os olhos e estremecem-lhe a voz. A tua
própria visão começa a ficar desfocada, queres ajudar e não consegues. Queres
ter as palavras certas para lhe dizer e não as tens. Ouves o que ela diz ao
telefone, menina feia que tu és, não se deve escutar as conversas dos outros.
Mas não evitas, não queres evitar. Queres saber o que ela sente, queres poder
secar-lhe as lágrimas. A chamada termina, vais abraça-la e dar-lhe um beijo na
testa. Dizes-lhe para ter calma mas de que vale? Não é o que ela precisa ouvir,
talvez nem precise de ouvir nada.
Enches
os teus ouvidos de boa música, queres estourar os tímpanos e gritar o mais alto
que puderes. O mundo cai-te em cima, as pessoas não compreendem o porquê de
seres a sensivelzinha lá da turma. Só
não percebem porque não sentem, porque nem sempre as lágrimas te escorreram
facilmente pelo rosto. Queres seca-las, tranca-las dentro de ti, não queres que
elas caiam em frente daqueles incompreensíveis, mas não consegues. Elas
escorrem, os teus olhos incham e os teus lábios ficam húmidos. Passas a mão rapidamente
pela cara com intenções de fazer toda aquela humidade desaparecer, mas
tentativas falhadas.
Pedes
desejos de ano novo, como se as estrelas te pudessem ajudar. Não tens muita
esperança porque nunca foste uma sortuda. Pedes com o teu coração e desejas que
se realizem. Tens medo do futuro e chegas a odiar-te a ti própria. Sentes-te
incapaz, não vês a motivação do teu lado. As tuas pernas fraquejam e o teu
corpo dói. A tua cabeça explode e não tens paciência suficiente para ninguém.
Queres a atenção que não dás, queres os mimos que já deste a alguém que não te
retribuiu. Queres uma amizade que dure mas o medo de perdê-la estará sempre
presente.
No
final do dia fechas os olhos e, quando os abres, querias que tudo aquilo não
passasse de um pesadelo que durou a noite inteira, mas não, é tudo bem real.